A importância da estrutura: por Maria del Rocio - CBA - Comissão Brasileira de Agility
A importância da estrutura: por Maria del Rocio
Notícia publicada dia: 02/02/2008
A importância da estrutura e dinâmica do cão para o Agility

O Agility é uma modalidade esportiva cuja particularidade é a interação entre o ser humano e o cão. Como todo esporte, o exercício do agility pode ser feito de duas formas: hobby ou competição.

Para os que encaram como competição, o caminho da vitória não é fácil, existem diversos fatores a serem trabalhados, alguns relacionados ao condutor (técnica de condução, memorização e etc.) e outros ao cão (treinamento, saúde, selecionamento genético, escolha do exemplar e etc.). Não existe mágica, existe conhecimento aplicado para tudo. Quanto mais se estuda, mais se aprimora cada detalhe e se consegue alcançar o objetivo numa  competição: Ganhar!

Para os que encaram como hobby, é importante saber as limitações estruturais do seu cão, afim de não causar injúrias que possam levar ao sofrimento. Afinal o objetivo em um hobby é a diversão, tanto para o ser humano como para o ser canino.

O detalhe que quero chamar a atenção nesta série de artigos é como a estrutura do cão pode interferir em seu desempenho.

Existe somente uma anatomia para a espécie canina, ou seja, mesmo números de ossos, músculos e tendões. Porém dentro dessa anatomia possuimos diversas variações. As combinações das diferentes angulações de articulações, formatos osséos e desenvolvimento muscular permitem termos diferentes tipos de estruturas osséas, e consequentemente distintos tipos de movimentação.

Estruturas

São variações dentro da mesma anatomia

Variações Estruturais>> - angulações das articulações
- formatos ósseos e cartilagem
- desenvolvimento muscular

A estrutura determina o movimento, diferentes estruturas resultam em diferentes movimentos, e o ser humano se aproveitou dessa variações. O cuidadoso selecionamento de milhares de anos, nas variações estruturais, no temperamento, na exterioridade (pelagem, cores, orelhas e etc) permitiu termos cães que são especializados em diversos trabalhos, como cães que caçam em tocas, cães para companhia, outros que recolhem a ave abatida na água, cães de tração, cães que caçam javalis, outros tigres, cães que pastoreiam gado e outros mini ovelhas. São mais de 360 raças oficialmente reconhecidas, cada qual com sua função de trabalho especifico.

Nenhuma raça canina foi selecionada genéticamente para o Agility, simplesmente estamos adaptando as raças existentes que mais se adequam a este esporte. Nem todas as raças deveriam praticar e muito poucas raças podem ser competitivas, essa é a realidade.

Para exemplificar uma das diferenças estruturais, irei me focar na angulação do posterior de duas raças: Border Collie e Retriever do Labrador 

O Border Collie é uma raça de pastoreio. Para o correto exercício de sua função é necessário cobrir distâncias no solo com a maior eficiência possível. Somente um posterior com angulações mais fechadas permite uma maior amplitude do passo em um único movimento.

 

O Retriever do Labrador é uma raça de coleta (a caça abatida que cai na água). Para o exercício de sua função é necessário cobrir distâncias dentro da água com a maior eficiência possível, sendo necessário ter peso corporal (lastro) e músculos potentes, necessitando articulações mais retas entre os ossos, a fim de manter a estabilidade corporal. Seu posterior com angulações mais abertas faz com que tenha menor amplitude do passo.

Border e Labrador exercendo o mesmo trabalho: AGILITY

O Border Collie possui mais alavanca (extensão) e propulsão para um salto (ou passo) que um labrador. Numa linha reta, o Border começa o salto muito antes devido à capacidade de projeção da suas angulações. Não é porque o Labrador é mais pesado, que ele salta de forma mais lenta, derrubando mais saltos e telhas, simplesmente suas angulações são mais retas. Não adianta emagrecer-lo, a ponto de ficar pele e osso para poder saltar melhor: sua estrutura sempre será de um cão pesado por mais magro que esteja, as angulações não irão mudar.

 Importante ressaltar que dentro da mesma raça existem exemplares diferentes. Cada raça possui seu padrão detalhado para o correto exercício do trabalho para o qual foi selecionado. Todos os padrões estão no site da Confederação Brasileira de Cinofilia (www.cbkc.com.br ).

Nem todo Border Collie segue corretamente o padrão da raça, podemos ter um Border cujas angulações sejam erroneamente como as de um Labrador. Entender quando o exemplar está com desvios enquanto ao padrão é fundamental. Dificilmente existirá um exemplar completamente dentro do padrão, sempre vai haver algum detalhe que desvie, como variações de angulação fêmur-tibio-patelar, formato de costela, tipo de olhos, tamanho do jarrete, formato dos pés, pelagem, orelhas e etc.

Porém existem desvios mais graves e outros menos. Para um cão de pastoreio, erros estruturais que afetam a dinâmica do movimento são mais graves. Para um cão de companhia, erros de beleza como a textura da pelagem ou a cor são mais graves que os de estrutura. O padrão não é feito para ser levado em consideração somente numa exposição de beleza, alías nome bastante inadequado para essa atividade, o correto seria dizer exposição de conformação. O padrão de raça foi feito para que todo o árbitro, criador e expositor o respeitem. Ele determina o correto exercício da função selecionada pelo ser humano para essa raça. O praticante de agility também precisa começar a entende-lo.

EXEMPLOS DE DESVIOS NA RAÇA PASTOR ALEMÃO

Para os que praticam Agility com cães sem raça, analisando a estrutura de seu cão e possível avaliar o potencial de seu exemplar. Existem certas “estruturas mais propícias” para a prática do Agility.

Ao examinar o seu cão (com ou sem raça) e saber o que não está correto em termos estruturais, pode-se, em certos casos, melhorar a dinâmica do movimento através de um treinamento adequado ou um condicionamento muscular direcionado. Certos erros estruturais também são passíveis de causar lesões corporais graves ao longo do tempo de prática de agility, por isso o trabalho de fisioterapia preventiva é importantíssimo nesses casos.

Analisando somente o metacarpo, região de extrema importância no Agility. Um Border Collie de 20 kg, com velocidade de 5 m/s, após o salto pode sofrer na região um impacto de 100 kg/cm2.(calculo efetuado pelo físico M.Moraes, condutor da Juju). Lembrando que por centésimos de segundo, esse impacto somente se focará numa pata.

Podemos ter diversas angulações de metacarpo em relação ao solo, porém para a pratica do Agility o ideal é ligeiramente inclinado (1). No padrão da maioria das raças de pastoreio (como o Border Collie) é exigida essa angulação. O exemplar que segue o padrão não terá problemas durante a prática do Agility, caso o exemplar tenha o metacarpo erroneamente muito inclinado (2), ocorrerá uma lesão óssea ou articular a longo prazo na região carpiana que incorretamente sofrerá o impacto. No caso de cães com o metacarpo muito reto (a maioria das raças Terriers), o impacto será amortizado incorretamente na art. umero-radio-ulnar (cotovelo)  Este dois exemplos são casos no qual é importante efetuar o condicionamento muscular para evitar a injúria.

Pior do que o salto, teremos a curva para os cães que possuem o metacarpo muito inclinado. Na situação de alta velocidade dentro do túnel em curva, aonde na dinâmica do movimento se projeta a pata para dentro, é muito mais fácil ocorrer situações de injúria devido a torção do metacarpo. No momento que o cão pisa, ele já está virando o corpo para o próximo passo e o metacarpo que inclinou demais atrasa a retomada do passo e pode sofrer a injúria. Para um cão de metacarpo muito reto, devido a sua falta de flexibilidade somente ocorrerá a perda da velocidade.

Dentro da estrutura canina, temos diversos fatores para analisar, como proporções corpóreas, formatos ósseos, angulações (das art. fêmur-tibio-patelar, art.escapulo-umeral, art. umero-radio-ulnar, pelvis, art. tibio-tarsiana, art.metatarsiana e etc.). Como já escrevi, da estrutura depende o movimento. O Agility é mais que um esporte, é uma engenharia!
 

Por M.V. Maria del Rocio Nadal

· Médica Veterinária exercendo clinica de Cães e manejo reprodutivo/ genético para canis.
· Arbitro Internacional de todas as raças pela F.C.I – C.B.K.C
· Responsável técnica da FECESP junto ao ministério da agricultura, pelo serviço de registro
· Diretora de criação da Associação Paulista do Chow Chow
· Diretora técnica do Poodle Clube Paulista
· Criadora de Boston Terrier e praticante de Agility


Central de Carteiras
Últimas Solicitações
Renovação de Carteira
Novas Carteiras
Buscar uma Carteira
Noticias