Entrevista com Sarah Lorentzen Campeã WC2006 - CBA - Comissão Brasileira de Agility
Entrevista com Sarah Lorentzen Campeã WC2006
Notícia publicada dia: 19/03/2009
Nosso grande amigo Dante Camacho esteve na Dinamarca em Dezembro e pôde conversar com Sarah Lorentzen, que venceu o Mundial de Agility em 2006 com sua Border Collie Simic.

Confira agora essa entrevista!

Como começou a fazer Agility?
Sarah Lorentzen: Até os meus oito anos de idade, sempre quis ter um cavalo mas minha família nunca teve dinheiro para me comprar um. Assim que terminei o colegial, decidi estudar e trabalhar com cavalos, assim estaria mais próxima deles.

Em 1998, em uma excursão da faculdade a uma competição de cavalos, vi uma apresentação de Agility pela primeira vez. De início eu achei muito engraçado aquele bando de gente correndo em pista sem os cães, mas na hora em que os cães vieram e a apresentação começou, eu me apaixonei. Era incrível como aqueles cães pareciam estar se divertindo, prometi a mim mesma que faria aquilo com meu próprio cão.

Qual foi seu primeiro cão?
SL: Meu cão naquela época era um mestiço de labrador chamado Bailey. Ele começou muito bem, mas tinha alguns probleminhas para se concentrar, nós conseguimos alcançar o grau 3 e ele era bem consistente mas não rápido o suficiente para estar no topo. Naquela época os Border collies já dominavam o Agility e eu sabia que precisaria de um para competir de igual pra igual.

Quais as características que procura quando você escolhe um filhote?
SL: Bianca foi o meu primeiro Border Collie e na época eu não sabia nada sobre ela, meu treinador na época me disse que tinha um filhote sobrando de uma ninhada da qual ele tinha comprado um filhote também. Agora é bem diferente quando escolho um filhote.

Primeiramente conheço o temperamento dos pais, é muito importante para mim conseguir um cão "forte" mentalmente, que não seja medroso e se distraia facilmente. Se os pais forem sensíveis ou agressivos em qualquer situação eu imediatamente descarto a possibilidade de pegar um filhote dessa ninhada.

Também fico atenta ao tamanho dos pais, não quero um cão que seja muito grande e pesado.

Procuro por criadores que se preocupem em socializar seus filhotes para que estejam acostumados a aceitar novas situações, sons, cheiros e pessoas, antes de serem mandados para seus novos lares.

Quando você começa a treinar seu filhote?
SL: Normalmente começo quando o filhote tem 3 meses, ensinando-o a amar brinquedos e ir buscá-los quando jogo. Também ensino o filhote a focar a frente, seja num brinquedo ou em comida.

Começo a ensinar meu filhote a ficar desde cedo. Também gosto de ensinar meu filhote a trabalhar a uma certa distancia de mim, para isso ensino-o a circundar uma árvore, aos poucos me afasto fazendo com que ele aprenda a focar a frente e trabalhar sozinho.

Familiarizo o filhote com o túnel e também ensino ele a tocar com as patas dianteiras no chão usando uma tábua para simular o final do obstáculo de contato. Coloco saltos com a barra no chão para ensinar o filhote a correr entre as asas e também ensino-o a focar a frente colocando o brinquedo ou a comida no chão ou jogando depois dos saltos.

Qual a coisa que considera mais importante no seu treino e que método de condução você utiliza?
SL: Depois de muitos anos fazendo Agility percebi que contatos, slalom e um bom fica na saída, são muito importantes para zerar uma pista. Por isso passo muito tempo treinando essas 3 coisas.

Se eu tenho certeza que meu cão vai fazer a zona independentemente de onde eu estiver, terei mais liberdade para me posicionar melhor para o próximo obstáculo ou sequência.

Se eu posso confiar que meu cão vai fazer o slalom e acertar a entrada de qualquer posição, estando eu perto ou longe, também tenho mais possibilidades de me posicionar melhor para ajudá-lo na próxima combinação de obstáculos.

Por fim, se meu cão sabe ficar no inicio de uma prova, posso me preocupar somente com meu posicionamento, podendo assim indicá-lo com antecedência a direção que tem que tomar quando começarmos nossa pista.

Se eu puder confiar no meu cão para fazer essas 3 coisas, posso focar toda minha energia em ajudá-lo no restante do percurso, que geralmente vão ser umas 3 ou 4 sequências de saltos e alguns túneis.

No meu sistema de condução, tento avisar meu cão com o máximo de antecedência possível que direção terá que tomar.

Se quero que meu cão vire para a esquerda, faço com que vire um pouco para a direita antes de liberá-la para a curva a esquerda.

Se quero que meu cão faca uma curva fechada e eu estiver muito longe para indicar com meu corpo, ensinei meu cão um som que indica que deve reduzir a velocidade antes de saltar, então digo "go back" para que ele vire para o lado oposto a mim ou "come" para que vire em minha direção.

Eu gosto de estar sempre a frente ou ao lado do meu cão, mas as vezes isso não é possível.

Aprendi a minha base de condução com a Jenny Damm (Suécia) e adaptei para mim e meus cães.

Qual sua profissão?
SL: Por dois anos abri minha "empresa" e dei aulas de agility em período integral, mas depois de me separar, senti que faltava tempo tendo que dar tantas aulas e cuidar da minha filha. Eu ainda dou algumas aulas mas é mais hobby do que trabalho. Eu dei aulas de montaria por muito tempo e pretendo fazê-lo novamente.

Quantos cães você tem e quantos competem?
SL: No momento tenho 3 Border Collies em casa e um a caminho. Bianca é a minha mais velha com 9 anos e ainda competindo. Entretanto não espero muito dela por conta das zonas de contato, sempre tenho que ficar atrás dela e isso me dificulta a conduzir do jeito que gosto. Simic tem 6 anos e está no seu melhor, eu confio nela completamente e sabemos exatamente o que a outra está pensando. A Success é filha da Simic e tem 11 meses, venho treinando-a desde o inicio e tenho grandes expectativas, ela tem o controle e a calma da mãe e um super drive que vem do pai. Ela é muito rápida, espero que consiga se concentrar em manter as barras dos saltos mesmo correndo tão rápido quanto corre. O meu último se chama Keeper e tem 6 semanas, ele vai para casa no meio de março.

Com que frequência você compete?
SL: De fevereiro a maio, cerca de uma ou duas vezes por mês, de maio a setembro praticamente todos os finais de semana.

Em setembro tem o Mundial e em dezembro o Campeonato Nórdico, depois a gente tira umas férias até voltar tudo em fevereiro novamente.

 

Como é escolhido o time Dinamarquês para os Mundiais?
SL: Na Dinamarca você se inscreve para fazer parte de uma seletiva, todos os inscritos participam de treinos organizados baseados nas sequências dos juízes daquele ano, também testamos bastante a velocidade dos obstáculos como Rampa, Gangorra, Slalom e Passarela. Dessa forma sabemos onde estamos bem e onde temos que melhorar. As vezes no primeiro treino alguns cães já são cortados por já mostrarem que não tem condições de fazer parte do time. Mais alguns treinos acontecem.

No ultimo treino, sentamos todos e conversamos sobre o que vai acontecer no Mundial, os mais velhos contam suas experiências aos mais novos. Conversamos sobre nossos objetivos e expectativas, se competiremos de forma mais segura ou se poremos tudo em jogo e partiremos pra cima. No final do encontro montamos 4 pistas e corremos como se fosse o Mundial.

Depois todos os treinadores se juntam e decidem quem serão os felizardos que vestirão a camisa vermelha e branca da seleção.

Como funciona o esquema de patrocínios?
SL: O Kennel Clube Dinamarquês nos dá uma ajuda para fazer as seletivas e todos os anos nos da um novo agasalho. Geralmente o agasalho não e muito confortável e no ano passado nós decidimos comprar um do nosso bolso.

Nós sempre temos um patrocinador para as camisetas, geralmente uma marca de ração. Alguns membros do time já tentaram conseguir patrocínios para a equipe mas o Kennel Clube sempre rejeitou. Para ir ao Mundial nós ganhamos 250 Euros e o restante temos que pagar nós mesmos.

Quantas pessoas fazem Agility na Dinamarca?
SL: Em torno de 2500 pessoas contando a todos, o numero de competidores é provavelmente só um terço desse numero e os que competem em provas oficiais são menos ainda.

Existem mais cães standard, midi ou mini competindo na Dinamarca?
SL: Acredito que nos clubes e escolas os números sejam mais ou menos iguais em todas as categorias mas especialmente em competições você vê um numero maior de cães standard.  Geralmente a soma dos midis e minis se equivale ao numero de cães standard. No ano passado alguns clubes fizeram provas onde dividiam o Sábado para os minis e midis e os domingos só para os standard.

No geral é mais difícil encontrar cães midis e minis muito competitivos na Dinamarca, entre os cães standard há mais cães rápidos.

O que você acha das cruzadas cegas (Blind Cross)?
SL: Acho que as cruzadas cegas são muito boas mas também são muito fáceis de serem confundidas pelos cães. Eu já cheguei a usar em competições mas nunca treino eles, já vi muitas situações em que o cão de repente cruza atrás do condutor, porque este estava muito a frente ou simplesmente por não entender o que o condutor queria. Quando uso cruzadas cegas, geralmente são em frente às zonas de contato, slalom ou túneis, pois sei que meu cão vai continuar fazendo o obstáculo independentemente de onde eu estiver indo.

Quem é o criador da Simic?
SL: Eu comprei a Simic do canil Asasara, da criadora Lone Sommer. Mesmo antes da cruza, eu já tinha me apaixonado pela mãe da Simic, uma cadela chamada Froeken, ela era muito calma e rápida no Agility e tinha uma técnica de salto espetacular. O pai era um cão de pastoreio da Suécia que também fazia Agility e estava no time Sueco naquela época.

A criadora Lone Sommer foi muito criteriosa para vender os filhotes e eu tive que responder milhões de perguntas sobre o porque eu achava que seria uma boa dona para aquele filhote. Depois da entrevista com ela, sai do canil ainda sem saber se poderia ter um filhote ou não.

A Lone escolheu o filhote que achou que seria melhor para mim e eu sou muito grata a ela por isso. Meu filhote, Keeper, de 6 semanas vem do mesmo canil. Felizmente dessa vez não precisei responder a tantas perguntas.

A Simic está em desvantagem por ser uma Border tão pequena?

SL: Certamente não. Apesar da Simic só ter 47cm, ela tem as costas bem longas e uma traseira bem larga, com muito musculatura. Ela raramente toca nas barras e consegue virar num instante.

Acho que a única desvantagem dela é o latido, acho que ela seria mais rápida se calasse o bico (risos...).

Como foi vencer o Mundial individual?
SL: No ano anterior eu tinha vencido o Campeonato Nórdico grávida de 7 meses e meio, pensei na época que nada poderia superar aquela sensação. Eu estava enganada!

A coisa mais difícil do Mundial foi esperar pela minha vez de correr o Agility. Quando percebi que tinha vencido o Jumping, notei que teria que ser a última a entrar em pista em todo aquele campeonato.

Quando andava pelos corredores, ouvia pessoas comentando que geralmente quem vence o Jumping não vai bem no Agility. Eu pensava comigo mesma "Vou mostrar pra eles...”, mas no fundo estava morrendo de medo.

Eu sentia um grande frio na barriga e sabia que o título estava na minha mão, mas que qualquer errinho poderia fazê-lo escorregar entre os meus dedos.

Os cinco cães que entraram antes de mim zeraram, o publico foi a loucura e o meu frio na barriga também.

Pra piorar a assistente técnica do nosso time pulou no meu pescoço chorando, dizendo: "Você consegue...". O nosso técnico puxou-a de lado, me olhou sério e disse: "Faca o que você sempre faz...". Nesse momento olhei para a Simic, ela me olhou bem dentro dos olhos, quase que sorrindo, pronta pra entrar.

Eu pensei comigo mesma: "Ela não sabe que esse é o Mundial, para ela tanto faz se estamos aqui ou em uma pista no meio do nada, ela sempre dá o seu máximo por mim, ela merece que eu dê o meu máximo por ela..."

O frio na barriga desapareceu, entrei em pista e sai sabendo que o juiz não tinha levantado a mão nenhuma vez, mas ainda não sabia se tinha sido rápida o suficiente, afinal, os cinco últimos cães estavam zerados.

De repente as pessoas começaram a se atirar em cima de mim, gritando que eu era a Campeã Mundial... Eu dei a minha volta Olímpica e pessoas do mundo inteiro vieram parabenizar a mim e a Simic. Na hora do pódium a sensação de ficar ali sozinha com seu cão ouvindo o hino do seu país é indescritível.

Algo mudou na sua vida desde a vitória no Mundial?
SL: Antes eu era conhecida como a garota da Border preto e branco, agora sou conhecida como a garota que venceu o Mundial de 2006. Pode ser um pouco solitário estar no topo, algumas pessoas adorariam me ver por baixo e situações desagradáveis já aconteceram. No ultimo Mundial Simic começou a vomitar de repente, e se recusava a beber água do seu próprio prato, ficou sem comer durante todo o campeonato, tenho quase certeza que alguém pois algo na água dela. Hoje em dia tomo mais cuidado e nunca deixo ela sozinha, ou somente com pessoas de confiança.

Eu raramente sou convidada para assistir a cursos, o que é uma pena pois é sempre bom conhecer outras técnicas.

Eu consegui varias oportunidades para dar cursos depois que venci o Mundial e fiz vários amigos, mas isso foi tudo.

Eu tenho muito orgulho do que conquistei mas sempre mantenho meus pés no chão. Sei que tenho que trabalhar muito para chegar ao topo.

Eu ainda cometo erros e sou desclassificada eventualmente, a Simic continua a mesma cachorra, ela não se acha melhor porque venceu um Mundial. Pra ela se eu a alimentar e passar tempo com ela, ela fica feliz.

Eu acho importante manter o Agility um esporte divertido e nao só manter o foco em vencer.


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